Um garoto alegre, saudável e sempre disposto a um sorriso. Assim está Lucas Cauan Conceição Teodoro - bebê que foi submetido a uma cirurgia intra-uterina para correção de um defeito congênito -, em seu primeiro aniversário. O garoto completa 1 ano dia 1º de março, e sua recuperação pode ser computada no rol de sucessos da medicina. Lucas, que nasceu na 35ª semana de gestação, com 2,2 quilos, está agora com 8,8 quilos e, exceto pela ligeira hidrocefalia, se desenvolve como qualquer criança desta idade.
Ele é um bebê sociável e brincalhão, que dá boas gargalhadas com as brincadeiras da irmã Maria Eduarda, de 4 anos, e adora motos e carros. É só falar no assunto, que ele faz com as mãozinhas o gesto de acelerar a moto. "Imaginava que ele teria muitos problemas de desenvolvimento, mas ele é esperto e tem as mesmas reações de qualquer bebê", comemora a mãe, Kelly Cristina Conceição. O garoto responde rápido a todos os estímulos e não economiza sorrisos, mesmo para estranhos.
Mas, apesar da alegria com o desenvolvimento do garoto e da promessa feita na época da cirurgia, Kelly explica que o primeiro aniversário de Lucas não será comemorado com festa. "A situação está difícil. Não tenho como fazer uma festa para ele, apesar de querer muito. Prometi que, se ele superasse a cirurgia, faria uma bela festa no aniversário de 1 ano, mas infelizmente não tenho condições", lamenta Kelly.
Ela explica que, há cerca de quatro meses, foi diagnosticado que Lucas estava com anemia profunda e precisaria tomar leite Nan HA, que custa R$ 38,00 a lata (dura de três a quatro dias). Como o produto é muito caro, Kelly conversou com o médico, que autorizou substituir o produto pelo leite Nan tipo 1 (passou para o tipo 2 agora), e acrescentar na dieta de Lucas verduras como beterraba e espinafre e outros ingredientes que contêm ferro."Mesmo assim, o leite sai caro. Precisei até vender o carrinho que ele ganhou para comprar o leite e mais fraldas", conta. Kelly explica que teve também que desmamar o menino para que ele aceitasse a mamadeira com o leite especial.
O pai de Lucas, Antonio Teodoro Júnior, trabalha como "chapa" de caminhão, com salário de R$ 100,00 por semana. O casal e os dois filhos vivem com os pais de Kelly numa casa de três quartos, onde moram dez pessoas. Kelly diz que queria trabalhar fora, mas os cuidados com o garoto a impedem. "Não tenho como arrumar um emprego e faltar duas ou até três vezes por causa do tratamento dele", explica. Como alternativa, ela está revendendo cosméticos. "É irregular e meio arriscado, mas não tem outro jeito." Todo o tratamento de Lucas é feito por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), mas a família tem que arcar com as despesas de viagem e medicamentos. Lucas mora em Aguaí e tem consultas periódicas com pediatra, neurologista, urologista, aftalmologista e ortopedista na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de fazer fisioterapia duas vezes por semana em São João da Boa Vista. Tem ainda que tomar continuamente o antibiótico Cefalexina para prevenir infecção urinária. O remédio é fornecido na rede pública, mas, segundo Kelly, está sempre em falta em Aguaí. "Depois da reportagem sobre os seis meses do Lucas, um laboratório mandou um lote do antibiótico. Mas o estoque está acabando. Deve durar mais uns 15 dias", informa a mãe. Alheio aos problemas financeiros da família, Lucas é só alegria. Kelly conta que ele é muito sossegado, não dá trabalho e quase nunca chora. "Só quando está doente”. Para Kelly, ver o menino tão esperto compensa todo o sofrimento e apreensão com a cirurgia. "Quando olho para ele, tenho certeza que tomei a melhor decisão. Não me arrependo nem por um segundo de ter concordado com a cirurgia", afirma. Segundo os médicos, graças à intervenção intra-uterina, Lucas mantém a mesma hidrocefalia que tinha na gestação e não precisou colocar válvula para drenar o líquido da cabeça, como ocorre com a maioria dos bebês vítimas do distúrbio. "Queria comemorar o primeiro aniversário dele até para mostrar para as pessoas que o Lucas é uma criança normal. Ele tem dificuldades para firmar as pernas, mas, ri, grita e está começando a falar e até faz birra na hora de dormir", brinca a mãe. "Se tivesse que dar uma nota para o desenvolvimento do Lucas, seria um dez", afirma o cirurgião pediátrico Lourenço Sbragia Neto, que participou da cirurgia intra-uterina de Lucas. "Ele é esperto, responde a estímulos e tem chances de andar", avalia, ressaltando que toda a equipe de cirurgia fetal está muito satisfeita com o resultado. Na 19ª semana de gestação de Lucas, os médicos diagnosticaram que ele tinha mielomeningocele, um defeito congênito que se caracteriza pela abertura na parte posterior da coluna vertebral e cuja principal seqüela é a hidrocefalia (acúmulo de água no cérebro).
A opção para conter o avanço da hidrocefalia é a cirurgia intra-uterina. O procedimento, que depende do consentimento da mãe, foi realizado em dezembro de 2003 pela equipe da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenada pelo obstetra Ricardo Barini. Lucas nasceu no dia 1º de março e uma semana depois foi para casa. Para o neuropediatra Helder Zambelli, a evolução de Lucas superou as expectativas. "Ele tem um bom desempenho neuropsicomotor, não precisou usar válvula na cabeça e tem boa movimentação das pernas, que permite andar com apoio", diz o especialista. Segundo ele, o objetivo da cirurgia - que era conter a hidrocefalia e evitar o retardo mental - foi atingido. A hidrocefalia do garoto se mantém no nível em que estava na época do nascimento, sem necessidade do uso de válvula, ao contrário do que ocorre na maioria dos casos da doença. Zambelli explica que, em geral, portadores de mielomeningocele têm dificuldade para mexer as pernas (paraparesia) e de controle da urina, a chamada bexiga neurogênica. Lucas terá dificuldades para andar, mas tem boas chances de conseguir. "Com exercícios e fisioterapia, provavelmente, ele conseguirá caminhar", avalia. Já o problema da bexiga pode ser amenizado com medicação, mas dificilmente será eliminado.
Fonte: Jornal Correio Popular – Campinas-SP (28/02/2005).
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