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Semelhanças genéticas induzem abortos

Em casais com semelhança genética, existe a probabilidade da mãe desenvolver uma resposta protetora, interpretando o embrião como um corpo estranho e o rejeitando em seguida. A imunoterapia com linfócitos é apontada, portanto, como alternativa eficaz para solucionar o problema. No Brasil, a técnica vem sendo utilizada - com excelentes resultados - desde 1990. Atualmente, o Núcleo de Imunologia da Reprodução Humana reúne os principais representantes da área, desenvolvendo o tratamento em conformidade com um protocolo estabelecido. O mestre em Ginecologia-Obstetrícia pela UFC, Dr. Marcelo Cavalcante, detalha as etapas do procedimento médico e seus benefícios.


No que consiste a imunoterapia com linfócitos?

É um tratamento imunológico indicado para casais com abortos recorrentes e com falhas de implantação embrionária em ciclos de fertilização in vitro. O objetivo do tratamento é fornecer um ambiente uterino adequado, do ponto de vista imunológico, para que aconteça um desenvolvimento da gestacional satisfatório.

Quando o tratamento na área de reprodução humana começou a ser desenvolvido?

O maior desafio para os estudiosos em reprodução humana é saber por que o embrião não é rejeitado pelas células de defesa da mãe. O embrião, formado a partir da união do óvulo com o espermatozóide, é um ´corpo estranho´ que se desenvolve no útero materno. Nossas células de defesa são programadas para rejeitar tudo que é estranho ao nosso organismo. Porém, durante uma gravidez normal, a mãe desenvolve uma resposta que evita que o embrião seja destruído. Na década de 1970, estudiosos observaram que nos casais com semelhança genética, a mãe não consegue desenvolver uma resposta protetora e interpreta o embrião como algo estranho, e em seguida o rejeita, repetidas vezes. No final da década de 1970, Dr. Alan Beer, idealizador da imunoterapia com linfócitos, nos Estados Unidos, observou que nesses casais, quando a mulher recebe concentrações de linfócitos do parceiro, a resposta protetora é restabelecida, apresentando gestações normais após o tratamento. Em 1985, Mowbray publicou o primeiro estudo com ótimos resultados da imunoterapia com linfócitos em casais com aborto recorrente. No Brasil, a terapia vem sendo utilizada desde os anos 1990.

O que os levou a perceber que a compatibilidade sangüínea entre o casal poderia dificultar a gravidez?

Existem populações no mundo que são isoladas, bastante fechadas, havendo um maior número de casamentos entre indivíduos de uma mesma origem familiar, e com um alto grau de semelhança. Observou-se que nessas populações havia uma maior incidência de casais com aborto recorrente. Baseados nessas populações, os estudos revelaram que casais com compatibilidade de HLA apresentam abortos repetidas vezes. Em 1966, Clarke e Kirby comprovaram que a diferença entre a mãe e o embrião era fundamental para um adequado processo de implantação. Quando um embrião é muito semelhante à mãe, o sistema de defesa materno interpreta que são células próprias se dividindo rapidamente e tenta evitar a continuidade da gravidez.

Quando o tratamento é indicado? No Ceará, onde pode ser feito?

Existem inúmeros fatores responsáveis por abortos recorrentes e por falhas de implantação embrionária, sendo o fator altoimune apenas um desses. A avaliação desses casais deve ser completa, pois é freqüente a associação de fatores. A indicação precisa do tratamento é para os casais com dois ou mais abortos e que seja observada essa compatibilidade sanguínea. Mulheres com história de doença autoimune também devem ser submetidas à investigação. O Núcleo de Imunologia da Reprodução Humana (NIDARH) possui profissionais nas principais capitais brasileiras, inclusive em Fortaleza, que estão capacitados em avaliar esses casais e se necessário realizar a imunoterapia.

Essa investigação é recomendada para mulheres que nunca engravidaram ou tiveram aborto?

Recentemente, alguns estudiosos no Canadá, Alemanha, Japão, Argentina e aqui no Brasil estão realizando a investigação e tratamento imunológico em casais inférteis e com falhas de implantação em ciclos de fertilização in vitro (bebê de proveta), acreditando existir uma interferência desse fator. Porém, o tema ainda é muito controverso e merece maior número de estudos.

Quais os tipos de exames que detectam o problema?

O principal exame na avaliação desses casais é o crossmatch (prova cruzada) com sangue do parceiro. Nesse exame é pesquisada, na mulher, a presença de anticorpos antilinfócitos do esposo. Um exame negativo significa a ausência de anticorpos antilinfócitos e determina que o casal deva ser submetido ao tratamento. Outros exames ainda devem ser realizados para a investigação de causas imunológicas para casais com aborto recorrente.

Como a vacina é feita? Como age no organismo?

A vacina é composta por linfócitos, preparada a partir do sangue do parceiro e aplicada por via intradérmica na mulher. O mecanismo de ação principal é o estímulo à produção de anticorpos antilinfócitos e de outros fatores que promovem uma resposta adequada no processo de implantação embrionária.

A vacina com linfócitos pode ser produzida com sangue colhido há mais de 24 horas? De que forma esse tempo influi na eficácia do tratamento?

A imunoterapia com linfócitos ainda é alvo de muitas críticas quanto a sua eficácia, devido à existência de algumas publicações que não a recomenda. Porém, nessas publicações foram observadas falhas metodológicas na investigação e manejo dos casais envolvidos. Para que possa haver bons resultados é necessário que sejam seguidos alguns critérios rígidos na investigação do casal, no preparo da vacina e no seguimento do tratamento. Casais com aborto recorrente precisam investigar todas as possíveis causas e não somente o fator imunológico. Existem vários outros fatores responsáveis por perdas recorrentes: genéticos, hormonais, infecciosos, anatômicos, ambientais e hematológicos. Nos casais submetidos à imunoterapia com linfócitos, a mulher deve receber quantidades mínimas de linfócitos por dose, e o intervalo entre a coleta, o preparo e a aplicação deve ser o menor possível, pois o efeito estimulador dos linfócitos é muito fugaz. Estudos que trataram os casais com vacinas preparadas com menos de 80 milhões de linfócitos por dose e com sangue estocado por mais de 12 horas não obtiveram bons resultados.

Existem efeitos colaterais?

A principal preocupação do tratamento é com a transmissão de doenças infecciosas a partir do sangue do parceiro. É realizado um controle sorológico rígido antes do preparo das imunizações. Existem ainda outros efeitos colaterais passageiros e que podem aparecer no local das imunizações (calor, vermelhidão e endurecimento).

Quanto tempo dura o processo de imunização do casal? Isso depende de quê?

O objetivo do tratamento é deixar a prova cruzada positiva antes de liberar o casal para uma nova gestação. A imunoterapia consiste em imunizações intradérmicas preparadas a partir de sangue do parceiro e administrada, inicialmente, em 2 ocasiões com intervalo de 4 a 6 semanas. Após 1 mês da segunda imunização, a paciente realiza um novo teste para detectar a presença de anticorpos antilinfócitos. Aproximadamente 85% das pacientes respondem ao tratamento inicial de forma plena, sendo liberada para engravidar. Os 15% restantes respondem parcialmente ou não respondem a terapia inicial, sendo necessário reavaliar cada caso. Pacientes com teste pós-imunização positivo devem realizar imunizações de reforço a cada três meses, caso não engravide, para manter níveis elevados de proteção. Dados revelam que cerca de 60% das pacientes engravidam nos primeiros 3 meses. No período gestacional é recomendada imunização mensal durante os primeiros quatro meses da gravidez.

Com a imunização, quais as chances de a gravidez evoluir normalmente?

Os resultados da literatura nacional e internacional mostram que em média 85% dos casais evoluem com uma gravidez normal após o tratamento. Mulheres que possuem algum outro fator associado, principalmente um fator anatômico e autoimune, podem apresentar uma diminuição dessas taxas. Os casais que, mesmo na vigência do tratamento ainda, apresentam uma perda gravídica devem realizar uma investigação genética do produto do aborto, pois podem ocorrer alterações genéticas esporádicas que justifiquem esse desfecho.

Há alguma influência do tratamento sobre as características do embrião?

O tratamento não interfere no desenvolvimento normal do embrião. Milhares de crianças no Brasil e centenas no Ceará já nasceram devido ao tratamento imune, sem nenhuma complicação. Pacientes com aborto recorrente, geralmente, não possuem dificuldade em engravidar. Em muitos casos, a utilização de técnicas de reprodução assistida para tratamento desses casais são desnecessárias e podem evoluir com novas perdas. Infelizmente a imunoterapia com linfócitos ainda é pouco conhecida tanto pelos profissionais quanto pelos pacientes, o que dificulta o acesso e faz com que muitas mulheres continuem abortando e agravando sua situação.

 
 
 
 
Para agendar uma avaliação imunológica ligue para 3235-0958 e fale com Luciana Costa.

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